Entre 1 e 5 de novembro de 2003, Liana Friedenbach, 16 anos,
foi sequestrada, torturada, estuprada e assassinada por quatro marginais em
Embu-Guaçu, região metropolitana de São Paulo. Durante
esse período, ela foi estuprada várias vezes pelos criminosos, que, num rodízio
macabro, liderado pelo marginal Champinha, serviram-se dela como se fosse pasto
humano. O calvário de Liana teve fim quando Champinha tirou-lhe a vida com
vários golpes de facão. Presidenta, imaginemos que Liana tivesse sobrevivido ao
estupro coletivo a que foi submetida, tal como ocorre com muitas brasileiras
sobreviventes de estupro no dia a dia do nosso País. Imaginemos, Presidenta,
que o Projeto de Lei nº 60/99 aprovado pelo Congresso Nacional já tivesse sido sancionado
por Vossa Excelência e já estivesse em vigor, Liana teria o direito de fazer uso do
atendimento médico previsto neste Projeto de Lei. Agora, imaginemos que o
obscurantismo, o fanatismo e a insensibilidade religiosa prevaleçam, o que
seria trágico sob qualquer aspecto, e Vossa Excelência atenda ao pedido de veto
pleiteado pelos religiosos que foram ao Palácio do Planalto pressionar o
governo. Aí Presidenta, o MARTÍRIO de
Liana teria sido em vão! Seria o mesmo que estuprar sua memória. O Estado
Brasileiro é laico e este é um País livre de
fundamentalismos religiosos de quaisquer espécie (AINDA).
Aqui, no Brasil, respeitamos o direito de cada um ter a fé que mais lhe
satisfaça espiritualmente ou de não ter fé nenhuma. E assim tem que ser. Somos uma
democracia. A nítida e rigorosa separação entre religião e Estado, com absoluta
insubmissão constitucional a dogmas, comportamentos ou credos religiosos tem
que ser preservada em nome do ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, que
baliza e regula a vida do nosso povo. No Estado laico a separação entre
religião e Estado não é para proteger a religião das garras do governo e sim
proteger o governo das garras do fanatismo religioso. E vetar o que os
religiosos estão pedindo para vetar é fazer o mal, é estuprar novamente as
mulheres que são vítimas de violência sexual.
Presidenta, sei das dificuldades e
dos problemas sobre-humanos que têm afligido a senhora, mas não macule o seu mandato com uma decisão que seria
própria de um Inquisidor dos remotos tempos da Idade Média. Encerro, senhora Presidenta, lembrando Blaise
Pascal: “os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como
quando o fazem por convicção religiosa”.
Daniel Tourinho (advogado e Presidente do PTC)
Daniel Tourinho (advogado e Presidente do PTC)
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